Sábado, 24 de Março de 2007

Violência Estrutural e Violência Criminal

A organização social do Estado Brasileiro está estruturada em um sistema que, se por um lado oferece instrumentos de bem estar social com políticas públicas de infra-estrutura urbana eprevidência social _ além de sustentar uma economia que permite a uma parcela da população participar de todos os benefícios que o desenvolvimento econômico e tecnológico podem oferecer _ por outro impede a outra parcela da população, a maior parte dela, de ter acesso a estes benefícios.
A precariedade das condições de vida e a falta de acesso aos benefícios do progresso econômico é o que define, neste texto, o conceito de violência estrutural*; origem de uma sociedade violenta.
A falta de habitações adequadas, de equipamentos sociais e de acesso aos serviços públicos, situação destinada à parte da população que não compartilha dos benefícios que o desenvolvimento do Estado proporciona, é o que chamarei aqui de “Violência estrutural”. Violência porque submete grande número de cidadãos a uma existência sem esperança, exposta a doenças, acidentes de trabalho, envelhecimento precoce, violência, desemprego, subemprego, sem amparo do Estado e poucas possibilidades de melhorar de vida. E estrutural porque essa exclusão é a base sobre a qual a sociedade brasileira foi construída e na qual ainda se sustenta, pois os mecanismos estatais que poderiam dar condições de mobilidade social são insuficientes e ineficientes.

“O conceito de violência estrutural que oferece um marco à violência do comportamento, se aplica tanto às estruturas organizadas e institucionalizadas da família como aos sistemas econômicos, culturais e políticos que conduzem à opressão de determinadas pessoas a quem se negam vantagens da sociedade, tornando-as mais vulneráveis ao sofrimento e à morte. Essas estruturas determinam igualmente as práticas de socialização que levam os indivíduos a aceitarem ou a infligirem sofrimentos [a outros] de acordo com o papel que desempenham.” (Boulding, 1981 -citado em: Assossiação Brasileira de Pós Graduação em Saúde Coletiva, 2007 - grifo meu)

Os elementos da violência estrutural são a ausência de infra-estrutura e planejamento urbano dos bairros periféricos _ onde as vezes o Estado só se faz presente nas ações policiais _ ; péssimas escolas com baixa qualidade de ensino, o que por si só impede a mobilidade social; hospitais e postos de saúde sem médicos, leitos e remédios, o que veda o acesso à saúde; oferecimento insuficiênte de defensoria pública para quem não pode pagar um advogado, o que veda o acesso à Justiça, etc...
Quem vive e cresce dentro desse sistema de precariedade e exclusão, acaba tendo a percepção de que a sua vida vale menos. É essa precariedade das condições de vida que leva ao aumento de outro tipo de violência, a criminal.
Mídia e Senso Comum
Apesar do seu poder de alcance e da sua influência, a imprensa está a serviço dos interesses de uma sociedade" eleita" que vive "apartada" da realidade social do país.
A relação entre crime e exclusão social, ou seja entre a violência estrutural e a violência criminal, constitui uma ameaça para as pretensões hegemônicas das elites econômicas que historicamente impedem a participação das outras parcelas da população na estrutura governamental e concentra a administração do Estado dentro do seu grupo social. Assim, conseguem tirar dele ainda mais benefícios, vetando ao restante da população os privilégios que ela recebe do Estado e fragilizando a estrutura social daqueles que realmente dependem desses benefícios. O resultado é a precariedade dos serviços públicos destinados a população de baixa renda, que não pode pagar por eles. Para evitar a associação da criminalidade com a violência estrutural, as elites usam como instrumento, através da mídia, que lhes pertence, a construção de um senso comum, uma visão de mundo onde a criminalidade é a violência em si e não uma consequência de outro tipo de violência.
Esse senso comum não chega a considerar a violência estrutural como tal, “mas sim, como pura e simples incompetência dos governos responsáveis”. Impressão que é amplificada pelos meios de comunicação, que lhes dispensam espaço muito menor que o dedicado á criminalidade, sem nunca associa-la como uma manifestação dessa violência. O silêncio da mídia retifica a violência estrutural e dissolve a revolta contra a ineficiência das políticas públicas, que acaba assumindo, pelo senso comum, uma aparência de fatalidade:
_ "Morreu na fila do Pronto Socorro? Chegou a hora dele, fazer o que?"
_ "O filho deixou a escola? É que ele não tinha inclinação pros estudos.”
_ "Está desempregado? É acomodado, preguiçoso, não se especializa”.
_ “Sofreu constrangimento ou abuso da autoridade policial?
Ficou dando "sopa" na rua até tarde da noite.”
Ao mesmo tempo, a mídia anuncia a urgência dos “eleitos” da sociedade em ver ações mais “efetivas” contra a violência criminal e legitima o aumento da repressão com a mobilização do corpo policial contra aqueles que o Estado já havia excluído. “Os violentados se tornam os violentos”.
“(...) A violência delinqüêncial não é um fenômeno uniforme, monolítico, que se abate sobre a sociedade como algo que lhe é exterior. Pelo contrário: Ela é polifórmica, multifacetada, encontrando-se diluída na sociedade sob as mais diversas manifestações, que se interligam, interagem, (re) alimentam-se e se fortalecem.” (Associação Brasileira de Pós Graduação em Saúde Coletiva, artigo, 2007)
Qual Sociedade a Mídia Representa?
Dinamismo econômico, modernidade, tecnologia. Realidade para apenas uma parcela privilegiada de cidadãos.
Quando a Imprensa fala em nome da “sociedade” acreditamos que ela fala em nosso nome, em nome de toda a “nossa" sociedade. Sociedade que, teoricamente, teria nos meios de comunicação um porta voz. Mas essa “sociedade” que os meios de comunicação nos fazem acreditar que também nos inclui representa apenas uma elite formada pelas classes média alta , sobretudo alta. É essa sociedade que, assustada em ver a escalada do crime chegando as suas portas, clama por leis mais duras contra a violência e pela maior ação preventiva contra o crime; o que no Brasil se entende por “maior ação repressiva”.
Não que as classes mais baixas também não clamem por segurança, muito pelo contrário, já que é sobre elas que a violência recai com maior peso e causa maior dano e é sobre ela novamente que atua a ação repressiva da polícia, quando esta é liberada dos limites legais para agir, motivada pelo clamor da “sociedade” por segurança. As classes mais baixas sofrem três vezes; pela violência estrutural, que é a precariedade das condições de vida; pela violência criminal, conseqüência da anterior, e pela violência policial.
Para completar, as políticas brasileiras de segurança pública ainda se apóiam no velho conceito de “classes perigosas”, em que o pobre, o negro e o jovem são considerados criminosos em potencial. Porém, quando se olha essa realidade do outro lado, eles é que são as vítimas preferenciais de uma sociedade onde a ordem de progresso é a concentração de renda e a exclusão de grupos. Um dos motivos que leva um policial a abordar um indivíduo por considera-lo suspeito é o mesmo que leva uma senhora a apertar a bolsa contra o corpo ao passar por ele.
Numa sociedade onde a violência do Estado não é questionada a Democracia é apenas aparente, servindo de disfarce para um sistema que apesar de se dizer participativo e advogar a liberdade e a igualdade entre seus cidadãos, não garante a todos o pleno acesso a seus direitos, pois o Estado volta suas atenções para atender apenas os interesses de uma classe privilegiada.
O Que Fazer Então?
Essa banalização das diferentes formas de violência é uma questão que demanda, da parte de TODA a sociedade, reflexão e ação, tanto política quanto participativa, uma vez que a única maneira de mudar esse quadro de violência endêmica é com a pressão da sociedade civil, que precisa comprar a idéia de que isso somente será possível com políticas públicas que reestruturem os mecanismos de defesa social e com investimentos maciços na construção de instrumentos de desenvolvimento humano.
Nenhum governo, até hoje, teve como prioridade à educação e o bem estar de TODOS os brasileiros porque nenhum deles foi eleito para isso. Suas prioridades são outras e as do grupo que o elegeu também. Quase todo candidato a cargos eletivos tem nos discursos sobre a segurança pública o seu ponto forte, porque sabe que rende muitos votos, mas seu compromisso é com a segurança do seu grupo e com a manutenção dos seus privilégios. As áreas sociais e educacionais não estão entre eles.
*Os dados apresentrados aqui foram baseados, em grande parte, no artigo “A concretização de políticas em direção à prevenção da violência estrutural.” Da Associação Brasileira de Pós Graduação em Saúde Coletiva.

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Abaixo o vídeo "Classe Média" de Max Gonzaga e Banda Marginal . Através da música, o grupo faz uma crítica à classe média brasileira.




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Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008
Incluído no calendário das comemorações nacionais desde2003, o dia 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, será feriado em 350, dos 5561 municípios espalhados pelo Brasil. Em 2008, ano em que a abolição do trabalho escravo completa 120 anos, este dia terá um ingrediente especial: Segundo estimativas do IBGE, os brasileiros que declaram a cor da pele como preta e parda _ negros, pela terminologia do instituto_ serão maioria no país, algo que não acontece desde 1890 (leia em Virada Racial). Podemos questionar se há mesmo a necessidade de tantos feriados, mas também devemos discutir sobre o porquê deles existirem e sobre a intenção daqueles que os criaram. Continue lendo...

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Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Burros, Cavalos e Democracia

Estamos em época de eleições e só o fato de podermos escolher livremente entre candidatos de diferentes partidos já revela uma característica importante sobre o nosso país: somos uma democracia. Mas o que significa essa tal de democracia, uma palavra tão valorizada entre nós, mas que só por aparecer neste site pode fazer com que ele seja censurado em alguns países? Continue lendo...

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Domingo, 7 de Setembro de 2008
Há 50 anos, em Julho de 1958, nascia a bossa nova, um estilo musical que transformaria para sempre a música brasileira. Um desconhecido João Gilberto, criador de um jeito novo de tocar violão, lançava o álbum “Chega de Saudades” com duas faixas que logo chamariam a atenção do público: “Chega de Saudades”, composição de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e “Bim Bom”, do próprio Gilberto, ambas com essa “batida diferente”, como definiu seu criador. Bossa era uma gíria usada por jovens universitários para jeito, maneira, estilo. Quando alguém tinha um jeito novo de cantar, tocar, ou mesmo de se comportar diante da turma, dizia-se que era um sujeito cheio de bossa... Continue lendo...

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Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
Este texto é o resultado de algumas reflexões sobre a última greve de professores do Estado de São Paulo, a primeira da qual eu participei, ao contrário de tantas outras que apenas acompanhei pela TV e que muitas vezes praguejei por causa dos transtornos que quase sempre provocam. Por ter vivido esta experiência de greve acabei percebendo algumas coisas que antes me passavam despercebidas e que me levaram a fazer muitas perguntas. Não é a minha intenção aqui responder a essas perguntas ou apontar soluções, até por que não saberia fazê-lo, pretendo apenas levantar algumas questões e compartilhar com o leitor minhas opiniões e minhas dúvidas.

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Domingo, 13 de Julho de 2008
O que é?
Segundo o dicionário Houaiss, entre outras definições, palavra é a menor partícula da língua, com som e significado próprios. Significado que não depende dela, mas do sistema lingüístico ao qual pertence e que é o resultado da interação dos homens entre si e deles com o ambiente em que vivem e que está em constante transformação. Palavra é o que dá nome, ou o que define a natureza do que tem nome. Como um artigo que define o gênero de um substantivo. Palavra deriva do Grego “parabolé”, que significa narrativa alegórica. Em certo sentido uma palavra é isso, uma alegoria, ou seja, uma fantasia, um signo, ou, para ficar mais fácil, um nome para a idéia de alguma coisa. Palavras nomeiam idéias, se uma palavra não existe, a idéia também não existe. Complicado? continue lendo...

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Sábado, 21 de Junho de 2008
No dia 13 de Maio de 2008, 120 anos após a abolição dos escravos, o IPEA* – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - e o IBGE -Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, órgãos do Governo Federal, divulgaram o resultado de um levantamento inédito (ref. 2006) sobre a variação de cor e gênero na participação da economia e do trabalho no Brasil. Além de desmistificar o mito da Democracia Racial brasileira, mostrando que a população preta e parda está muito longe de alcançar os mesmos níveis de educação, emprego e renda que a população branca, os números apresentados permitem fazer uma projeção que pode parecer surpreendente. Continue lendo...

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Segunda-feira, 12 de Maio de 2008
Um Poema Pedagógico
Recentemente eu li "Poema Pedagógico" de Anton Makarenko (S. Paulo, 2005 _ Editora 34). O livro é resultado do diário pessoal que o autor manteve quando foi diretor de um reformatório ucraniano, a Colônia Gorki, entre 1920 e 1928. Makarenko era um adimirador do celebre escritor russo Máxim Gorki, por isso batizou a colônia com seu nome. Gorki se correspondeu com Makarenko e seus internos por vários anos e chegou a visitar a colônia em 1928.A história se passa logo após a Revolução Russa e no final da Guerra Civil. Esses dois eventos, somados a Primeira Guerra Mundial , entre 1914 e 1917 e à Guerra contra o Japão, em 1905, deixaram a economia do país praticamente arruinada. Assim que o Governo Revolucionário conseguiu certa estabilidade política tratou de reconstruir o país. Mas não se tratava apenas de reconstruir a economia, a nova ordem econômica e social, baseada no Socialismo, não tinha precedentes na História. Continue lendo...

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Quinta-feira, 29 de Março de 2007
A cidade fascina os homens a pelo menos 7.500, segundo a Arqueologia. No começo cidade era sinônimo de segurança já que sua função era servir de fortificação. De dentro dela os reis governavam os homens, os sacerdotes seus espíritos e os dois, juntos com os comerciantes, seus bolsos. Todos muito bem protegidos pelos guardas do reino ou da tribo. Com o desenvolvimento das técnicas de construção, as cidades ganharam muralhas, muitas delas intransponíveis, além de templos, palácios, teatros e novos equipamentos urbanos como praças públicas, ruas calçadas, aquedutos e sistema de esgotos. Além de garantir um abrigo seguro para os poderosos a cidade tinha outra função importante: Continue lendo...

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Sábado, 24 de Março de 2007
A organização social do Estado Brasileiro está estruturada em um sistema que, se por um lado oferece instrumentos de bem estar social com políticas públicas de infra-estrutura urbana e previdência social _ além de sustentar uma economia que permite a uma parcela da população participar de todos os benefícios que o desenvolvimento econômico e tecnológico podem oferecer _ por outro impede a outra parcela da população, a maior parte dela, de ter acesso a estes benefícios.
A precariedade das condições de vida e a falta de acesso aos benefícios do progresso econômico é o que define, neste texto, o conceito de violência estrutural; origem de uma sociedade violenta. Continue lendo...

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