Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

Ao trabalho!

Este texto é o resultado de algumas reflexões sobre a última greve de professores do Estado de São Paulo, a primeira da qual eu participei, ao contrário de tantas outras que apenas acompanhei pela TV e que muitas vezes praguejei por causa dos transtornos que quase sempre provocam. Por ter vivido esta experiência de greve acabei percebendo algumas coisas que antes me passavam despercebidas e que me levaram a fazer muitas perguntas. Não é a minha intenção aqui responder a essas perguntas ou apontar soluções, até por que não saberia fazê-lo, pretendo apenas levantar algumas questões e compartilhar com o leitor minhas opiniões e minhas dúvidas.
A greve durou três semanas e foi marcada por um silêncio ensurdecedor por parte da imprensa. Quase não foi notícia! Apenas quando os professores, em passeata, interditavam a Avenida Paulista, uma das principais da cidade, é que o movimento aparecia na mídia, e mesmo assim, por conta dos congestionamentos que provocava. Até hoje essa atitude da imprensa me intriga. Será que a sociedade perdeu mesmo ointeresse pela educação pública ou terá sido uma atitude política dos meios de comunicação para não prejudicar a imagem do governo em ano de eleição? Ou os dois?

Outra atitude que me fez pensar foi o posicionamento de muitos professores. E o não posicionamento também, principalmente. Segundo o governo a adesão à greve não passou de 2%, já para o sindicato, a adesão foi de 70%. Nesta guerra de números não é difícil ficar perdido no meio do tiroteio, mas é possível perceber que nenhum dos dois lados usou os números corretos.

Pela quantidade de professores presentes nas assembléias percebe-se que a adesão foi muito além dos 2% sugeridos pelo governo, mas pela quantidade de escolas que continuaram funcionando também se percebe que a adesão foi bem menor que os 70% divulgados pelo sindicato. A greve não conseguiu mobilizar toda a categoria, apesar das reivindicações serem unanimidade entre os professores: Reposição das perdas salariais acumuladas desde 1998;melhorias nas condições de trabalho para um ensino de qualidade, diminuição do número de alunos por sala de aula (hoje com 40/50 alunos!), entre outros itens como a classificação por concurso público, a revogação de um decreto que limita o número de licenças médicas e de outro que proíbe a transferência de escola.

Uma categoria desunida, que não se mobiliza, é uma categoria fraca, sem força para se fazer ouvir, quanto mais para ser atendida ou pior, respeitada. Como explicar essa apatia? Observar o atual contexto da economia mundial talvez ajude.

Vivemos um período de precarização do trabalho, fala-se no “fim do emprego”, um fenômeno mundial. Somado a isso temos uma ideologia neoliberal que ganhou força a partir dos anos 80 e que, entre outras coisas, valoriza o individualismo, a liberdade e a livre iniciativa. Não há lugar para o coletivo nessa nova ordem mundial. Se as condições do emprego atual são ruins, não se perde tempo tentado melhorá-las, procura-se outro. Para isso, é preciso se manter sempre atualizado para competir pelas melhores vagas. Quem tem condições de pagar pelos inúmeros cursos oferecidos para suprir as sempre novas exigências do mercado e pode investir na própria imagem, tem melhores condições para competir; é livre para escolher o melhor emprego. Mas essa liberdade depende de constante investimento. Quem não pode bancar esse investimento fica preso à insegurança e ao medo de perder o que tem. Ser livre custa caro e o mercado sabe se servir muito bem dessa liberdade.
A incerteza com relação à manutenção do emprego e a necessidade de honrar compromissos financeiros como contas e prestações a pagar pesam, e muito, na hora de decidir cruzar ou não os braços, pois o salário vai fazer falta no mês seguinte. O sindicato, que deveria zelar pelo fortalecimento do coletivo, vem perdendo credibilidade e legitimidade nos últimos anos, ocupado com seus conflitos internos regados a discursos ideológicos que não mudaram muito desde os anos 70. A pressa com que essa paralisação foi decidida, sem uma discussão prévia junto aos professores, explica por que muitos profissionais não se sentem representados por ele.
Greve não é privilégio dos professores brasileiros. Em abril deste ano os professores do Reino Unido também decidiram cruzar os braços: “Resolvemos parar agora para garantirmos um futuro para nossa profissão”, disse uma professora inglesa, decepcionada com os rumos da educação pública britânica. Lá, como aqui, a preocupação quanto ao futuro faz parte do dia a dia do professor. Se a profissão perder o valor que deve ter para a sociedade, o profissional também ficará desvalorizado. É isso o que vem ocorrendo nas últimas décadas. O que pode enobrecer mais um trabalhador que a natureza do seu ofício? Tanto mais nobre é um trabalhador quanto mais nobre é considerada sua profissão, mas para isso é preciso identificação.
A baixa adesão nas últimas paralizações não seria um sinal de que falta identificação com a profissão? Talvez uma parcela considerável de professores veja a educação como um emprego, não como um trabalho. Eu explico: Trabalho e emprego não são a mesma coisa. Trabalho é toda ação transformadora empreendida pelo Homem, seja ela mecânica ou intelectual (Aliás, toda atividade mecânica, isto é, realizada por esforço físico, qualquer que seja ela, é também uma atividade intelectual, poisnecessita de aprendizagem e planejamento). Já, emprego é um contrato firmado entre quem idealiza o trabalho e aquele que o executa em troca de uma remuneração. Emprego é uma relação de interesse ou necessidade. Trabalho, ao contrário, não pressupõe, necessariamente, remuneração. Quem nunca ouviu a frase: "Deixe seu emprego e vá trabalhar"? Quando nos dedicamos a algo no qual acreditamos, que nos completa como pessoa e que nos torna felizes, estamos trabalhando, ou seja, realizamos uma atividade criadora, transformadora do mundo, que nos move para frente, que faz parte da nossa vida, quando não é a nossa própria vida. Quem não sente isso pelo que faz pode ser um bom profissional, pode satisfazer bem as expectativas que fazem dele, pode até ganhar muito bem, mas se faz issoparasobreviver, ou para ter um nível de vida considerado bom, estará apenasempregado. Neste sentido, greve também é trabalho, pois é um instrumento _ legítimo, diga-se de passagem _ de transformação.
Claro que esse é apenas um ponto de vista do qual eu compartilho. Para mim, ser professor não pode ser apenas um emprego, pois significa assumir uma responsabilidade social, significa ter que se posicionar diante das questões que afligem a sociedade incentivando a reflexão. É função do professor questionar o senso comum, combater a exploração, a alienação e a intolerância; ensinar o que é respeito, o que é ética. Ser professor é batalhar por um mundo melhor, apesar de todas as adversidades. E isso dá trabalho, como dá!

Anton Makarenko, (ler "Um Poema Pedagógico") um educador que se dedicou à dar uma face mais humana à educação de menores infratores na recém criada Unição Soviética, desenvolvendo uma pedagogia com ênfase no coletivo, pensava a educação como a única força motriz capaz de transformar a sociedade. Se essa transformação não está se dando como gostaríamos talvez seja hora de nos perguntarmos: O que estamos fazendo de nós mesmos? E o que estamos deixando que façam com nossa profissão?

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2 Comentários:

Eduardo Passos disse...

Olá, Edu, acabei de ler seu texto e, como sempre, está pontuado de muitas reflexões pertinentes.
Quanto ao descaso dos pais e da mídia, penso ser dos dois lados. Como na reportagem da Veja que te mandei (que vale pelos dados da pesquisa e não pela análise, em boa dose, nefasta da revista), os pais acham que a educação de seus filhos está ótima e os professores acham que ensinam bem. Onde está o problema? Creio que está numa sociedade que não valoriza o aprendizado. As celebridades de hoje não são as grandes mentes pensantes ou líderes espirituais contestadores, mas popozuda o belo da vez.
A época atual, tão bem identificada por você como competitiva e capitalista, priviligia apenas uma imagem exterior: bem, se cicrano tem um Cross Fox, é uma pessoa de sucesso. É para a plateia exterior, já que a interior está tão fragilizada. mas acredito que, apontando o dedo na ferida, como vc faz, veremos, um dia, que a plateia e o palco são uma coisa só, e vivem dentro.

Eduardo E. S. Prado disse...

Obrigado pelo comentário, Edu!

Concordo com você! Saindo um pouco do tema do post _ que é a questão do profissional da educação _ existe sim, uma inversão de valores em nossa sociede que não privilegia o que somos, mas o que temos ou aparentamos ter. Vivemos num mundo de imagens. Imagem é tudo! E o conteúdo??

Por outro lado estamos na era da informação. Quem não é capaz de transformar esse turbilhão de informações que recebemos todos os dias em conhecimento não será capaz de se inserir plenamente nesta sociedade.

Aí é que eu te pergunto: Como conciliar esses dois aspectos na escola?

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Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008
Incluído no calendário das comemorações nacionais desde2003, o dia 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, será feriado em 350, dos 5561 municípios espalhados pelo Brasil. Em 2008, ano em que a abolição do trabalho escravo completa 120 anos, este dia terá um ingrediente especial: Segundo estimativas do IBGE, os brasileiros que declaram a cor da pele como preta e parda _ negros, pela terminologia do instituto_ serão maioria no país, algo que não acontece desde 1890 (leia em Virada Racial). Podemos questionar se há mesmo a necessidade de tantos feriados, mas também devemos discutir sobre o porquê deles existirem e sobre a intenção daqueles que os criaram. Continue lendo...

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Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Burros, Cavalos e Democracia

Estamos em época de eleições e só o fato de podermos escolher livremente entre candidatos de diferentes partidos já revela uma característica importante sobre o nosso país: somos uma democracia. Mas o que significa essa tal de democracia, uma palavra tão valorizada entre nós, mas que só por aparecer neste site pode fazer com que ele seja censurado em alguns países? Continue lendo...

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Domingo, 7 de Setembro de 2008
Há 50 anos, em Julho de 1958, nascia a bossa nova, um estilo musical que transformaria para sempre a música brasileira. Um desconhecido João Gilberto, criador de um jeito novo de tocar violão, lançava o álbum “Chega de Saudades” com duas faixas que logo chamariam a atenção do público: “Chega de Saudades”, composição de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e “Bim Bom”, do próprio Gilberto, ambas com essa “batida diferente”, como definiu seu criador. Bossa era uma gíria usada por jovens universitários para jeito, maneira, estilo. Quando alguém tinha um jeito novo de cantar, tocar, ou mesmo de se comportar diante da turma, dizia-se que era um sujeito cheio de bossa... Continue lendo...

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Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
Este texto é o resultado de algumas reflexões sobre a última greve de professores do Estado de São Paulo, a primeira da qual eu participei, ao contrário de tantas outras que apenas acompanhei pela TV e que muitas vezes praguejei por causa dos transtornos que quase sempre provocam. Por ter vivido esta experiência de greve acabei percebendo algumas coisas que antes me passavam despercebidas e que me levaram a fazer muitas perguntas. Não é a minha intenção aqui responder a essas perguntas ou apontar soluções, até por que não saberia fazê-lo, pretendo apenas levantar algumas questões e compartilhar com o leitor minhas opiniões e minhas dúvidas.

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Domingo, 13 de Julho de 2008
O que é?
Segundo o dicionário Houaiss, entre outras definições, palavra é a menor partícula da língua, com som e significado próprios. Significado que não depende dela, mas do sistema lingüístico ao qual pertence e que é o resultado da interação dos homens entre si e deles com o ambiente em que vivem e que está em constante transformação. Palavra é o que dá nome, ou o que define a natureza do que tem nome. Como um artigo que define o gênero de um substantivo. Palavra deriva do Grego “parabolé”, que significa narrativa alegórica. Em certo sentido uma palavra é isso, uma alegoria, ou seja, uma fantasia, um signo, ou, para ficar mais fácil, um nome para a idéia de alguma coisa. Palavras nomeiam idéias, se uma palavra não existe, a idéia também não existe. Complicado? continue lendo...

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Sábado, 21 de Junho de 2008
No dia 13 de Maio de 2008, 120 anos após a abolição dos escravos, o IPEA* – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - e o IBGE -Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, órgãos do Governo Federal, divulgaram o resultado de um levantamento inédito (ref. 2006) sobre a variação de cor e gênero na participação da economia e do trabalho no Brasil. Além de desmistificar o mito da Democracia Racial brasileira, mostrando que a população preta e parda está muito longe de alcançar os mesmos níveis de educação, emprego e renda que a população branca, os números apresentados permitem fazer uma projeção que pode parecer surpreendente. Continue lendo...

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Segunda-feira, 12 de Maio de 2008
Um Poema Pedagógico
Recentemente eu li "Poema Pedagógico" de Anton Makarenko (S. Paulo, 2005 _ Editora 34). O livro é resultado do diário pessoal que o autor manteve quando foi diretor de um reformatório ucraniano, a Colônia Gorki, entre 1920 e 1928. Makarenko era um adimirador do celebre escritor russo Máxim Gorki, por isso batizou a colônia com seu nome. Gorki se correspondeu com Makarenko e seus internos por vários anos e chegou a visitar a colônia em 1928.A história se passa logo após a Revolução Russa e no final da Guerra Civil. Esses dois eventos, somados a Primeira Guerra Mundial , entre 1914 e 1917 e à Guerra contra o Japão, em 1905, deixaram a economia do país praticamente arruinada. Assim que o Governo Revolucionário conseguiu certa estabilidade política tratou de reconstruir o país. Mas não se tratava apenas de reconstruir a economia, a nova ordem econômica e social, baseada no Socialismo, não tinha precedentes na História. Continue lendo...

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Quinta-feira, 29 de Março de 2007
A cidade fascina os homens a pelo menos 7.500, segundo a Arqueologia. No começo cidade era sinônimo de segurança já que sua função era servir de fortificação. De dentro dela os reis governavam os homens, os sacerdotes seus espíritos e os dois, juntos com os comerciantes, seus bolsos. Todos muito bem protegidos pelos guardas do reino ou da tribo. Com o desenvolvimento das técnicas de construção, as cidades ganharam muralhas, muitas delas intransponíveis, além de templos, palácios, teatros e novos equipamentos urbanos como praças públicas, ruas calçadas, aquedutos e sistema de esgotos. Além de garantir um abrigo seguro para os poderosos a cidade tinha outra função importante: Continue lendo...

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Sábado, 24 de Março de 2007
A organização social do Estado Brasileiro está estruturada em um sistema que, se por um lado oferece instrumentos de bem estar social com políticas públicas de infra-estrutura urbana e previdência social _ além de sustentar uma economia que permite a uma parcela da população participar de todos os benefícios que o desenvolvimento econômico e tecnológico podem oferecer _ por outro impede a outra parcela da população, a maior parte dela, de ter acesso a estes benefícios.
A precariedade das condições de vida e a falta de acesso aos benefícios do progresso econômico é o que define, neste texto, o conceito de violência estrutural; origem de uma sociedade violenta. Continue lendo...

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