Este texto é o resultado de algumas reflexões sobre a última greve de professores do Estado de São Paulo, a primeira da qual eu participei, ao contrário de tantas outras que apenas acompanhei pela TV e que muitas vezes praguejei por causa dos transtornos que quase sempre provocam. Por ter vivido esta experiência de greve acabei percebendo algumas coisas que antes me passavam despercebidas e que me levaram a fazer muitas perguntas. Não é a minha intenção aqui responder a essas perguntas ou apontar soluções, até por que não saberia fazê-lo, pretendo apenas levantar algumas questões e compartilhar com o leitor minhas opiniões e minhas dúvidas.
A greve durou três semanas e foi marcada por um silêncio ensurdecedor por parte da imprensa. Quase não foi notícia! Apenas quando os professores, em passeata, interditavam a Avenida Paulista, uma das principais da cidade, é que o movimento aparecia na mídia, e mesmo assim, por conta dos congestionamentos que provocava. Até hoje essa atitude da imprensa me intriga. Será que a sociedade perdeu mesmo ointeresse pela educação pública ou terá sido uma atitude política dos meios de comunicação para não prejudicar a imagem do governo em ano de eleição? Ou os dois?
Outra atitude que me fez pensar foi o posicionamento de muitos professores. E o não posicionamento também, principalmente. Segundo o governo a adesão à greve não passou de 2%, já para o sindicato, a adesão foi de 70%. Nesta guerra de números não é difícil ficar perdido no meio do tiroteio, mas é possível perceber que nenhum dos dois lados usou os números corretos.
Pela quantidade de professores presentes nas assembléias percebe-se que a adesão foi muito além dos 2% sugeridos pelo governo, mas pela quantidade de escolas que continuaram funcionando também se percebe que a adesão foi bem menor que os 70% divulgados pelo sindicato. A greve não conseguiu mobilizar toda a categoria, apesar das reivindicações serem unanimidade entre os professores: Reposição das perdas salariais acumuladas desde 1998;melhorias nas condições de trabalho para um ensino de qualidade, diminuição do número de alunos por sala de aula (hoje com 40/50 alunos!), entre outros itens como a classificação por concurso público, a revogação de um decreto que limita o número de licenças médicas e de outro que proíbe a transferência de escola.
Uma categoria desunida, que não se mobiliza, é uma categoria fraca, sem força para se fazer ouvir, quanto mais para ser atendida ou pior, respeitada. Como explicar essa apatia? Observar o atual contexto da economia mundial talvez ajude.
Vivemos um período de precarização do trabalho, fala-se no “fim do emprego”, um fenômeno mundial. Somado a isso temos uma ideologia neoliberal que ganhou força a partir dos anos 80 e que, entre outras coisas, valoriza o individualismo, a liberdade e a livre iniciativa. Não há lugar para o coletivo nessa nova ordem mundial. Se as condições do emprego atual são ruins, não se perde tempo tentado melhorá-las, procura-se outro. Para isso, é preciso se manter sempre atualizado para competir pelas melhores vagas. Quem tem condições de pagar pelos inúmeros cursos oferecidos para suprir as sempre novas exigências do mercado e pode investir na própria imagem, tem melhores condições para competir; é livre para escolher o melhor emprego. Mas essa liberdade depende de constante investimento. Quem não pode bancar esse investimento fica preso à insegurança e ao medo de perder o que tem. Ser livre custa caro e o mercado sabe se servir muito bem dessa liberdade.
junto aos professores, explica por que muitos profissionais não se sentem representados por ele. aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa Comente este texto! aaA baixa adesão nas últimas paralizações não seria um sinal de que falta identificação com a profissão? Talvez uma parcela considerável de professores veja a educação como um emprego, não como um trabalho. Eu explico: Trabalho e emprego não são a mesma coisa. Trabalho é toda ação transformadora empreendida pelo Homem, seja ela mecânica ou intelectual (Aliás, toda atividade mecânica, isto é, realizada por esforço físico, qualquer que seja ela, é também uma atividade intelectual, poisnecessita de aprendizagem e planejamento). Já, emprego é um contrato firmado entre quem idealiza o trabalho e aquele que o executa em troca de uma remuneração. Emprego é uma relação de interesse ou necessidade. Trabalho, ao contrário, não pressupõe, necessariamente, remuneração. Quem nunca ouviu a frase: "Deixe seu emprego e vá trabalhar"? Quando nos dedicamos a algo no qual acreditamos, que nos completa como pessoa e que nos torna felizes, estamos trabalhando, ou seja, realizamos uma atividade criadora, transformadora do mundo, que nos move para frente, que faz parte da nossa vida, quando não é a nossa própria vida. Quem não sente isso pelo que faz pode ser um bom profissional, pode satisfazer bem as expectativas que fazem dele, pode até ganhar muito bem, mas se faz issoparasobreviver, ou para ter um nível de vida considerado bom, estará apenasempregado. Neste sentido, greve também é trabalho, pois é um instrumento _ legítimo, diga-se de passagem _ de transformação.Claro que esse é apenas um ponto de vista do qual eu compartilho. Para mim, ser professor não pode ser apenas um emprego, pois significa assumir uma responsabilidade social, significa ter que se posicionar diante das questões que afligem a sociedade incentivando a reflexão. É função do professor questionar o senso comum, combater a exploração, a alienação e a intolerância; ensinar o que é respeito, o que é ética. Ser professor é batalhar por um mundo melhor, apesar de todas as adversidades. E isso dá trabalho, como dá!Anton Makarenko, (ler "Um Poema Pedagógico") um educador que se dedicou à dar uma face mais humana à educação de menores infratores na recém criada Unição Soviética, desenvolvendo uma pedagogia com ênfase no coletivo, pensava a educação como a única força motriz capaz de transformar a sociedade. Se essa transformação não está se dando como gostaríamos talvez seja hora de nos perguntarmos: O que estamos fazendo de nós mesmos? E o que estamos deixando que façam com nossa profissão?
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2 Comentários:
Olá, Edu, acabei de ler seu texto e, como sempre, está pontuado de muitas reflexões pertinentes.
Quanto ao descaso dos pais e da mídia, penso ser dos dois lados. Como na reportagem da Veja que te mandei (que vale pelos dados da pesquisa e não pela análise, em boa dose, nefasta da revista), os pais acham que a educação de seus filhos está ótima e os professores acham que ensinam bem. Onde está o problema? Creio que está numa sociedade que não valoriza o aprendizado. As celebridades de hoje não são as grandes mentes pensantes ou líderes espirituais contestadores, mas popozuda o belo da vez.
A época atual, tão bem identificada por você como competitiva e capitalista, priviligia apenas uma imagem exterior: bem, se cicrano tem um Cross Fox, é uma pessoa de sucesso. É para a plateia exterior, já que a interior está tão fragilizada. mas acredito que, apontando o dedo na ferida, como vc faz, veremos, um dia, que a plateia e o palco são uma coisa só, e vivem dentro.
Obrigado pelo comentário, Edu!
Concordo com você! Saindo um pouco do tema do post _ que é a questão do profissional da educação _ existe sim, uma inversão de valores em nossa sociede que não privilegia o que somos, mas o que temos ou aparentamos ter. Vivemos num mundo de imagens. Imagem é tudo! E o conteúdo??
Por outro lado estamos na era da informação. Quem não é capaz de transformar esse turbilhão de informações que recebemos todos os dias em conhecimento não será capaz de se inserir plenamente nesta sociedade.
Aí é que eu te pergunto: Como conciliar esses dois aspectos na escola?
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