Bossa Nova: 50 Anos

Há 50 anos, em Julho de 1958, nascia a bossa nova, um estilo musical que transformaria para sempre a música brasileira. Um desconhecido João Gilberto, criador de um jeito novo de tocar violão, lançava o álbum “Chega de Saudades” com duas faixas que logo chamariam a atenção do público: “Chega de Saudades”, composição de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e “Bim Bom”, do próprio Gilberto, ambas com essa “batida diferente”, como definiu seu criador.
Bossa era uma gíria usada por jovens universitários para jeito, maneira, estilo. Quando alguém tinha um jeito novo, ousado de cantar, tocar, ou mesmo de se comportar diante da turma, dizia-se que era um sujeito cheio de bossa. Desde o início dos anos 50 o termo bossa nova já era usado para os sambas mais modernos. Algumas canções, que hoje são ouvidas como bossa nova, foram gravadas bem antes. “Copacabana” foi gravada em 1946, por Dick Farney; "Felicidade", de Tom e Vinícius, foi lançada em 1955 no musical Orfeu Negro: Uma Tragédia Carioca. Mas o que acontecia em 1958 para que a “batida diferente” de João Gilberto, mais a melodia composta por Tom Jobim com letra de Vinícius, resultasse no ritmo símbolo de uma época e revolucionasse a música brasileira?

A resposta a essa pergunta servirá de pretexto para, ao tentar respondê-la, fazer um breve passeio por uma parte importante da história cultural do Brasil.
A InveCartaz da semana de 1922nção de Uma Identidade Nacional

13 de Fevereiro de 1922. O Teatro Municipal de São Paulo abria suas portas à Semana de Arte Moderna, uma exposição formada por jovens artistas de vanguarda como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Vítor Brecheret, Di Cavalcante e Heitor Vila-Lobos, portadores de uma estética desconcertante e incompreensível para o público da época. Além de romper com a arte tradicional, esses jovens artistas, incluindo escritores como Mario e Oswald de Andrade, faziam parte de um movimento que propunha desviar os olhos da Europa, parâmetro para tudo o que se produzia no Brasil, e voltá-los para dentro do próprio país, buscando inspiração nas raízes da cultura popular. Completavam-se os cem anos da independência política, mas a dependência cultural se mantinha. Era preciso conhecer o que tínhamos de mais autêntico, e isso passava pela constituição “racial” do povo e suas manifestações culturais. Foi um choque. Governado por uma oligarquia de fazendeiros que tinham suas propriedades no Brasil, mas as mentes na Europa, o país carecia de uma “identidade”. Essa realidade só mudaria com a Revolução de 1930 e a posse de Getúlio Vargas à presidência da República.

Não que Getúlio fosse um admirador da cultura popular, mas o momento mundial de ultra-nacionalismos exigia do Brasil uma identidade nacional que legitimasse sua unidade como nação. A Revolução Paulista de 1932, com um viés separatista, e a entrada na Segunda Guerra Mundial, só reforçaram a urgência de uma política cultural que unisse todos os brasileiros em torno de elementos culturais comuns. Por outro lado, se a mestiçagem do povo era considerada um fator inviabilizante do progresso econômico, a sua irreversibilidade tornava necessário fazer dela um valor positivo, um diferencial brasileiro. A capoeira, a Umbanda e o Candomblé, foram descriminalizados e o Samba, também proibido, ganhou status de música nacional por juntar, entre instrumentos, ritmos e danças, os elementos das três raças: europeus, indígenas e africanos. Outra marca da Era Vargas, a política de industrialização centrada nos grandes centros urbanos, atraia para as cidades migrantes de todas as partes do país. Assistia-se ao surgimento de uma cultura popular de massa que deixava de lado a sofisticação das elites, que não gostavam nada do que ouviam nas rádios.

Em 1937 tem início o período ditatorial conhecido como Estado Novo. Getúlio criava o D.I.P. (Departamento de Imprensa e Propaganda), com duas atribuições: Ser o órgão censor que vigiava a imprensa e ao mesmo tempo o aparelho de propaganda cultural e ideológica do regime. As manifestações da cultura popular seriam incentivadas, mas precisariam se enquadar aos temas impostos pelo governo, com ênfase nas grandezas do Brasil e na nobreza do trabalho. O viés populista do governo contribuía para que as músicas falassem do cotidiano do povo e de suas dificuldades, o que servia aos artistas mais engajados para denunciar, ainda que discretamente, as desigualdades sociais.

A Guerra Fria e o Governo JKcarmen072

Em 1945 a Segunda Guerra Mundial chega ao fim com a vitória dos aliados e tão logo os soldados da F.E.B. Força Expedicionária Brasileira _ voltavam para casa o Estado Novo chegava ao fim. As políticas nacionalistas da Era Vargas agora eram colocadas em cheque num mundo onde os norte-americanos investiam pesado na exportação do seu estilo de vida _ o american way of life _, e de suas multinacionais. Novas marcas e produtos invadem lojas e supermercados povoando os sonhos de consumo dos brasileiros. O Jazz fervilhava, inovando e experimentando ritmos e balanços influenciando a música no mundo todo, inclusive no Brasil, onde o rádio se consolidava como veículo de massa. O país inteiro parava para acompanhar novelas e concursos como o da Rainha do rádio. Além do Jazz e do samba, faziam sucesso os boleros, a música sertaneja e o baião. Da mistura de Samba com o Jazz _ e uma pitada de bolero _ surgiu o samba canção, sucesso nas vozes de Cauby Peixoto e Ângela Maria, entre outros grandes nomes. Suas letras românticas logo lhe conferiram o título de música de "dor de cotovelo". No exterior, desde o final dos anos 30, a música brasileira corria o mundo na voz e na imagem de Carmem Miranda, uma portuguesa criada em São Paulo e que encarnava nas telas e nos palcos uma negra de tabuleiro baiana: Sensual, sem papas na língua e de gestos exagerados. Carmem tornou a música brasileira conhecida lá fora, mas seu estilo caricaturizado incomodava parte da elite que viajava ao exterior, inclusive artistas, que não gostavam de serem tomados por este estereótipo.

Em 1946 Dick Farney gravou “Copacabana”, inaugurando um novo estilo musical que representava o rompimento com o Samba de morro, feito em bairros que ficavam de costas para o mar e falavam do cotidiano popular. As letras agora falavam do mar de Ipanema, do sol de Copacabana, das belas mulheres cariocas. Os clubes e casas noturnas abandonaram de vez os sucessos do rádio e aderiam a uma música mais moderna, internacional. A volta de Getúlio em 1950 e as crises provocadas entre o nacionalismo de Vargas e a internacionalização proposta pela oposição, aumentaram o antagonismo entre a cultura popular, nacional, e a internacional, considerada mais refinada e moderna. A classe média procurava se distanciar da cultural popular, além disso, o fortalecimento da União Soviética trazia de volta o fantasma da revolução comunista. Trabalhadores e sindicalistas agora eram sinônimo de comunistas, e a música popular, repleta de temas sociais como desemprego e miséria, passou a ser vista, não só com desprezo, mas com inquietação. Procurava-se outra música que para o Bcongresso_backlightrasil.

Em 1955 Juscelino Kubitschek assumiu a presidência com um discurso modernizador e entre suas principais propostas estavam à construção de uma nova capital federal, Brasília, uma cidade futurista no meio do deserto, e a intensificação da industrialização, dessa vez com investimentos estrangeiros. Uma nova identidade nacional era construída, agora sob a tradição da inovação, do progresso. Mas essa nova onda de nacionalismo contrastava com as musicas internacionais ouvidas nas casas noturnas e nos clubes da classe média e muita gente passou a se empenhar em produzir uma música sofisticada, mas que fosse naional. Um baterista, conhecido como Milton Banana, levou o samba de volta às casas mais sofisticadas ao criar um toque de bateria que reproduzia a batucada de samba. As inovações não pararam por aí. Johnny Alf, um pianista de formação clássica e amante do Jazz, conseguiu levar para o piano o ritmo do samba e do samba canção. Nas boates do beco das garrafas, em Copacabana, Johnny conheceu o maestro, e também pianista clássico, Tom Jobim, com quem fez várias parcerias na busca obstinada pela fórmula do samba moderno.

EnfDisco Chega de Saudadesim, A Bossa Nova

Em 1958 tudo parecia dar certo, investimentos estrangeiros, visitas de personalidades famosas como o presidente dos EUA, reis e artistas consagrados internacionalmente e o primeiro título mundial numa Copa do Mundo, na Suécia. O slogam “A taça do mundo é nossa! Com brasileiro não há quem possa!”, era ouvido por todo o país. Com tanto otimismo no ar, "a bossa nova era inevitável", segundo palavras do Próprio Tom Jobim. Foi como soprar fogo em palha. Depois de anos procurando, João Gilberto encontrou a tal batida diferente e o Brasil moderno finalmente ganhava sua trilha sonora; e a classe média também. A propaganda política e a publicidade logo se apropriaram do novo ritmo. O Presidente, agora, era bossa nova, o carro do ano era bossa nova; até a geladeira do comercial era bossa nova!

Já em 1962 outros ritmos regionais foram sendo incorporados à bossa nova e logo surgiu um outro estilo musical que não era nem bossa nova, nem samba, nem sertanejo, nem baião e, na falta de uma denominação, acabou sendo chamado por um nome genérico: M.P.B., talvez a maior contribuição da bossa nova para a música brasileira. A emergência da bossa nova também marcou um divisor águas para o mercado fonográfico. Até 1958 a música popular reinava absoluta nas rádios e na TV, após essa data surgiu uma diferenciação que se mantém até hoje entre o que é popular, agora relegado a categoria de bréga, e o que é sofisticado e de bom gosto.

Termino aqui esse rápido passeio, tão rápido que não foi possível visitar muitos personagens importantes deste período. Mas não era a minha intenção fazer um percurso detalhado, que seria muito longo, muito menos reduzir a criação de um gênero musical a um desejo da elite, e sim mostrar como cultura e história caminham juntas, dando a cada época uma cor e uma sonoridade própria. Se toda música tem uma história, toda história também tem uma música. Já sabe qual é a sua?

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Comentários

  1. Interessante falar de arte por um viés mais histórico. Muito instigante o seu percurso pra explicar a bossa nova. E viva a inventividade brasileira!

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  2. Pois é, Gil. Poucos países podem contar com uma produção cultural tão criativa e diversificada.

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  3. Eu não imaginava que a historia da Bossa Nova envolvia tantas coisas. Eu tava pesquisando sobre racismo em outra pagina e acabei caindo aqui. Agora sei que a bossa nova a ver com isso também.

    abçs!

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  4. Obrigado pela contribuição, estou iniciando meu TG sobre a história e representação dos estilos musicais brasileiros. Sabia que ganharia muito conhecimento sobre a historia de nosso pais! Abraço! Paulo P.

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  5. Obrigado por ter apreciado o texto, Paulo P.!

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