Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Um Poema Pedagógico

Recentemente eu li "Poema Pedagógico" de Anton Makarenko (S. Paulo, 2005 _ Editora 34). O livro é resultado do diário pessoal que o autor manteve quando foi diretor de um reformatório ucraniano, a Colônia Gorki, entre 1920 e 1928. Makarenko era um adimirador do celebre escritor russo Máxim Gorki, por isso batizou a colônia com seu nome. Gorki se correspondeu com Makarenko e seus internos por vários anos e chegou a visitar a colônia em 1928.

A história se passa logo após a Revolução Russa e no final da Guerra Civil. Esses dois eventos, somados a Primeira Guerra Mundial , entre 1914 e 1917 e à Guerra contra o Japão, em 1905, deixaram a economia do país praticamente arruinada. Assim que o Governo Revolucionário conseguiu certa estabilidade política tratou de reconstruir o país. Mas não se tratava apenas de reconstruir a economia, a nova ordem econômica e social, baseada no Socialismo, não tinha precedentes na História. Era preciso construir, também, uma nova sociedade, em que o coletivo prevalecesse sobre o individual; em que a ética burguesa da busca do lucro e da ostentação apoiada nas diferenças de classes, desse lugar a uma nova: Operária, camponesa e igualitária. Em que não houvesse exploração de uns sobre os outros e em que todos tivessem acesso as mesmas oportunidades em igualdade de condições. Enfim, era preciso construir um “novo Homem” e essa construção deveria começar pela educação das crianças e dos adolescentes, pelos filhos dos camponeses _ praticamente todos analfabetos como seus pais; pelos filhos dos operários _ com pouca ou nenhuma instrução e pelos menores abandonados; meninos e meninas de rua, boa parte já comprometida com o mundo do crime. Era por estes últimos que o pedagogo Anton Semionóvitch Makarenko, então com 32 anos, deveria começar a por em prática a educação socialista.
Cartaz soviético -Victor Koretsky
Makarenko não tinha nenhuma experiência na educação de menores infratores, nem mesmo os professores, contratados pelo governo revolucionário, tinham qualquer idéia de como educar esses garotos e garotas. A idéia do Departamento de Educação do novo governo era que o sistema capitalista, que imperou na Rússia até a Revolução, era o responsável pelo estado de miséria humana que arrastou essas crianças e adolescentes à criminalidade, ou seja, os menores infratores não deveriam ser considerados criminosos, mas sim, vítimas do sistema às quais era devida uma reparação.
Makarenko
Não demorou muito para Makarenko perceber que os manuais pedagógicos
simplesmente não funcionavam para a sua realidade, e isto porque não previam cobrança, recompensa, estímulo ou punição. Ele chamava os pedagogos de seres do Olimpo, por viverem nas núvens, distantes da realidade, e considerava as teorias pedagógicas vazias, sem possibilidades de aplicação prática. Sem temerem conseqüências ou esperarem qualquer recompensa os internos não tinham nenhum interesse em respeitar as regras da Colônia, muito menos em aprender alguma coisa. Até mesmo a segurança dos educadores ficava comprometida na maioria dessas colônias onde professores e funcionários tinham medo dos colonistas e estes dominavam as instituições, fazendo nelas o que queriam.

Depois de passar uma noite trancado em seu dormitório por medo dos próprios alunos, Makarenko decide trabalhar de modo intuitivo, disciplinar nos moldes dos destacamentos militares, mas flexivel, e sem ficar preso as convenções dos manuais pedagógicos. Não foi nada fácil. No começo os internos reagiram, mas vendo que o diretor estava irredutível alguns aderiram, outros preferiram fugir e passaram a praticar crimes na região. O Departamento de Educação via com preocupação e ressalvas _ e até mesmo com alguma inveja _ o modo como Makarenko dirigia o reformatório e chegou a lhe impor algumas dificuldades, embora ele contasse com a simpatia de algumas pessoas influentes. Makarenko também se questionava muito sobre os resultados da sua metodologia e por várias vezes pensou em desistir, mas decidiu continuar e aprender com os erros. Acabou chegando a conclusão de que não conseguiria educar delinqüentes juvenis se não houvesse cobrança por desempenho nem punição por indisciplina, mas também não adiantaria cobrar disciplina e estudo se não oferecesse nada em troca.

Disciplina, para ele, não era entendida como coerção ou imposição de normas rígidas de conduta, mas como a priorização do coletivo em detrimento do indivídual. Não de qualquer coletivo, mas de um coletivo harmonioso, pois só dentro de um coletivo harmonioso e feliz seria possível frutificar uma ética socialmente saudável. Ao longo de oito anos Anton Makarenko procurou "construir" um ambiente onde os educandos se sentissem parte dele. Era no coletivo que as demandas eram discutidas e providenciadas e era dentro dele que os problemas deveriam ser enfrentados e resolvidos. Os responsáveis por faltas mais graves, como furtos ou vandalismo, eram julgados pelos próprios companheiros numa espécie de assembléia, chamada por ele de Conselho de Comandantes, que decidia se o infrator era culpado, se deveria ser punido e qual a pena. Decisão que era sempre respeitada por ele. Gradativamente, os internos foram se convencendo de que a disciplina e o respeito mútuo revertiam para o bem estar deles próprios.

Câmera fabricada em pelos internos da colônia Dzerzhinsky,
para menores infratores, também dirigida por Makarenko
.
Em poucos anos a colônia se tornou auto-suficiente. Fabricava-se de tudo, o excedente era vendido e o lucro era reinvestido na colônia. Os jovens trabalhavam metade do período e estudavam na outra metade, sendo que o empenho deveria ser satisfatórios nos dois turnos. Não se tratava apenas de trabalhar por trabalhar, havia toda uma filosofia de progresso e crescimento que não se separava da educação. Makarenko não formou fabricantes de cabos de vassouras, mas médicos e aviadores, ainda que também saíssem de sua colônia exímios marceneiros, eletricistas e torneiros. A primeira câmera fotográfica da União Soviética foi fabricada dentro de uma colônia dirigida por ele.

A dificuldade em trabalhar com aqueles jovens levou o autor a tratar educação e instrução como coisas diferentes. “Instruir é educar, mas educar não é, necessariamente, instruir”. Há uma diferença entre educar um ser humano para tornar viável sua vida em sociedade e instruí-lo para a ciência e o trabalho. Era preciso oferecer muito mais que quartos aquecidos, roupas limpas e boa alimentação, os internos precisavam de garantias de que teriam uma vida rica em possibilidades. Depois de muitas reuniões, discussões e quase dois anos de frustrações, Makarenko conseguiu vagas nos cursos superiores para os internos da Colônia Gorki que se destacassem nos estudos. Aos outros, que não ingressassem no ensino superior, ficava garantido um ensino profissionalizante.

Apesar de suas conquistas Makarenko recebia pesadas críticas de pedagogos e do Departamento de Educação que consideravam suas normas de disciplina rígidas demais e também por ele não seguir as orientações pedagógicas. Percebendo que essa indisposição contra ele já estava prejudicando seus colonistas ele pediu demissão do cargo de diretor da Colônia Gorki, passando a se dedicar a colônia Dzerzhinsky onde teve seu trabalho reconhecido .
"Poema Pedagógico" é uma leitura indispensável para quem trabalha na área de educação. Embora o livro trate do universo dos reformatórios soviéticos do início do século XX, e dentro de um contexto bem particular que foi a implantaçao do Socialismo na União Soviética, a experiência transmitida pelo autor pode ser muito útil para professores e educadores de hoje. As personagens juvenis que povoam o livro são tão humanas e complexas quanto qualquer adolescente do século XXI e o mesmo vale para os educadores, na maioria muito bem intencionados, mas sem preparo para lidar com meninos e meninas com tantos problemas e com interesses tão divergentes e contraditórios.

Como pensava Anton Makarenko, em se tratando de educação, principalmente de adolescentes, não existe fórmula pronta, por isso devemos levar em conta que na época em que o livro foi escrito a sociedade soviética, como um todo, estava empenhada na reconstrução do país, o que só seria possível através da educação, e esta era a prioridade número um do governo, que entendia ser a única maneira de consolidar a Revolução e concretizar seus ideais.

Os educadores de hoje enfrentam desafios semelhantes, mas ao contrário de Makarenko não podem contar com o empenho do Estado. O tema Educação esta presente todos os dias na mídia, que se mostra mais preocupada com a falta de mão de obra qualificada do que interessada numa educação de qualidade voltada para a cidadania. E, apesar dos discursos, a educação pública não é prioridade. Jornalistas, Políticos, empresários e economistas são chamados a apontar soluções enquanto os professores, que realmente vivenciam a realidade do sistema, não são ouvidos e assim como Makarenko são o alvo das críticas.

Trechos do livro:

"O mais desagradável dos dialogos é aquele em que o interlecutor que tem o poder para decidir joga com a teoria, acreditando que a teoria determina a realidade".

“Nas ruas, a vida desses pequenos cidadãos transcorre naturalmente e os problemas de sobrevivência são solucionados sem que se recorra à moral e aos princípios tanto prezados pela nossa sociedade, pois não possuem nem tempo, nem costume, nem escrivaninha para ocuparem-se destas coisas. (...) é preciso sobreviver, mantendo-se com força na superfície do globo terrestre, mesmo que para isso seja preciso agarrar-se nas bolsas das senhoras e nas pastas de elegantes cavalheiros.

(...) A vontade dessas crianças a muito fora esmagada pela violência e pelos safanões dos mais velhos. Ao mesmo tempo essas crianças não são nada idiotas; de fato são crianças comuns, colocadas pelo destino numa situação incrivelmente absurda: Por um lado elas estão privadas de todos os beneficios do desenvolvimento humano e, por outro, são excluídas das soluções salvadoras, pela simples razão da sua luta pela sobrevivência. (Makarenko, 2005)

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Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008
Incluído no calendário das comemorações nacionais desde2003, o dia 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, será feriado em 350, dos 5561 municípios espalhados pelo Brasil. Em 2008, ano em que a abolição do trabalho escravo completa 120 anos, este dia terá um ingrediente especial: Segundo estimativas do IBGE, os brasileiros que declaram a cor da pele como preta e parda _ negros, pela terminologia do instituto_ serão maioria no país, algo que não acontece desde 1890 (leia em Virada Racial). Podemos questionar se há mesmo a necessidade de tantos feriados, mas também devemos discutir sobre o porquê deles existirem e sobre a intenção daqueles que os criaram. Continue lendo...

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Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Burros, Cavalos e Democracia

Estamos em época de eleições e só o fato de podermos escolher livremente entre candidatos de diferentes partidos já revela uma característica importante sobre o nosso país: somos uma democracia. Mas o que significa essa tal de democracia, uma palavra tão valorizada entre nós, mas que só por aparecer neste site pode fazer com que ele seja censurado em alguns países? Continue lendo...

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Domingo, 7 de Setembro de 2008
Há 50 anos, em Julho de 1958, nascia a bossa nova, um estilo musical que transformaria para sempre a música brasileira. Um desconhecido João Gilberto, criador de um jeito novo de tocar violão, lançava o álbum “Chega de Saudades” com duas faixas que logo chamariam a atenção do público: “Chega de Saudades”, composição de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e “Bim Bom”, do próprio Gilberto, ambas com essa “batida diferente”, como definiu seu criador. Bossa era uma gíria usada por jovens universitários para jeito, maneira, estilo. Quando alguém tinha um jeito novo de cantar, tocar, ou mesmo de se comportar diante da turma, dizia-se que era um sujeito cheio de bossa... Continue lendo...

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Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
Este texto é o resultado de algumas reflexões sobre a última greve de professores do Estado de São Paulo, a primeira da qual eu participei, ao contrário de tantas outras que apenas acompanhei pela TV e que muitas vezes praguejei por causa dos transtornos que quase sempre provocam. Por ter vivido esta experiência de greve acabei percebendo algumas coisas que antes me passavam despercebidas e que me levaram a fazer muitas perguntas. Não é a minha intenção aqui responder a essas perguntas ou apontar soluções, até por que não saberia fazê-lo, pretendo apenas levantar algumas questões e compartilhar com o leitor minhas opiniões e minhas dúvidas.

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Domingo, 13 de Julho de 2008
O que é?
Segundo o dicionário Houaiss, entre outras definições, palavra é a menor partícula da língua, com som e significado próprios. Significado que não depende dela, mas do sistema lingüístico ao qual pertence e que é o resultado da interação dos homens entre si e deles com o ambiente em que vivem e que está em constante transformação. Palavra é o que dá nome, ou o que define a natureza do que tem nome. Como um artigo que define o gênero de um substantivo. Palavra deriva do Grego “parabolé”, que significa narrativa alegórica. Em certo sentido uma palavra é isso, uma alegoria, ou seja, uma fantasia, um signo, ou, para ficar mais fácil, um nome para a idéia de alguma coisa. Palavras nomeiam idéias, se uma palavra não existe, a idéia também não existe. Complicado? continue lendo...

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Sábado, 21 de Junho de 2008
No dia 13 de Maio de 2008, 120 anos após a abolição dos escravos, o IPEA* – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - e o IBGE -Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, órgãos do Governo Federal, divulgaram o resultado de um levantamento inédito (ref. 2006) sobre a variação de cor e gênero na participação da economia e do trabalho no Brasil. Além de desmistificar o mito da Democracia Racial brasileira, mostrando que a população preta e parda está muito longe de alcançar os mesmos níveis de educação, emprego e renda que a população branca, os números apresentados permitem fazer uma projeção que pode parecer surpreendente. Continue lendo...

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Segunda-feira, 12 de Maio de 2008
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Quinta-feira, 29 de Março de 2007
A cidade fascina os homens a pelo menos 7.500, segundo a Arqueologia. No começo cidade era sinônimo de segurança já que sua função era servir de fortificação. De dentro dela os reis governavam os homens, os sacerdotes seus espíritos e os dois, juntos com os comerciantes, seus bolsos. Todos muito bem protegidos pelos guardas do reino ou da tribo. Com o desenvolvimento das técnicas de construção, as cidades ganharam muralhas, muitas delas intransponíveis, além de templos, palácios, teatros e novos equipamentos urbanos como praças públicas, ruas calçadas, aquedutos e sistema de esgotos. Além de garantir um abrigo seguro para os poderosos a cidade tinha outra função importante: Continue lendo...

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Sábado, 24 de Março de 2007
A organização social do Estado Brasileiro está estruturada em um sistema que, se por um lado oferece instrumentos de bem estar social com políticas públicas de infra-estrutura urbana e previdência social _ além de sustentar uma economia que permite a uma parcela da população participar de todos os benefícios que o desenvolvimento econômico e tecnológico podem oferecer _ por outro impede a outra parcela da população, a maior parte dela, de ter acesso a estes benefícios.
A precariedade das condições de vida e a falta de acesso aos benefícios do progresso econômico é o que define, neste texto, o conceito de violência estrutural; origem de uma sociedade violenta. Continue lendo...

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