Um Poema Pedagógico

Recentemente eu li "Poema Pedagógico" de Anton Makarenko (S. Paulo, 2005 — Editora 34). O livro é resultado do diário pessoal que o autor manteve quando foi diretor de um reformatório ucraniano, a Colônia Gorki, entre 1920 e 1928. Makarenko era um admirador do célebre escritor russo Máxim Gorki, por isso batizou a colônia com seu nome. Gorki se correspondeu com Makarenko e seus internos por vários anos e chegou a visitar a colônia em 1928.

A história se passa logo após a Revolução Russa e no final da Guerra Civil. Esses dois eventos, somados à Primeira Guerra Mundial, que se estendeu até 1918, e à Guerra Russo-Japonesa, entre 1904 e 1905, deixaram a economia do país praticamente arruinada. Assim que o Governo Revolucionário conseguiu certa estabilidade política tratou de reconstruir o país. Mas não se tratava apenas de reconstruir a economia, a nova ordem econômica e social, baseada no Socialismo, não tinha precedentes na História. Era preciso construir, também, uma nova sociedade, em que o coletivo prevalecesse sobre o individual; em que a ética burguesa da busca do lucro e da ostentação apoiada nas diferenças de classes, desse lugar a uma nova: operária, camponesa e igualitária. Em que não houvesse exploração de uns sobre os outros e em que todos tivessem acesso às mesmas oportunidades em igualdade de condições. Enfim, era preciso construir um "novo Homem" e essa construção deveria começar pela educação das crianças e dos adolescentes, pelos filhos dos camponeses — praticamente todos analfabetos como seus pais; pelos filhos dos operários — com pouca ou nenhuma instrução e pelos menores abandonados; meninos e meninas de rua, boa parte já comprometida com o mundo do crime. Era por estes últimos que o pedagogo Anton Semionóvitch Makarenko, então com 32 anos, deveria começar a por em prática a educação socialista.

Makarenko não tinha nenhuma experiência na educação de menores infratores, nem mesmo os professores, contratados pelo governo revolucionário, tinham qualquer ideia de como educar esses garotos e garotas. A ideia do Departamento de Educação do novo governo era que o sistema capitalista, que imperou na Rússia até a Revolução, era o responsável pelo estado de miséria humana que arrastou essas crianças e adolescentes à criminalidade, ou seja, os menores infratores não deveriam ser considerados criminosos, mas sim, vítimas do sistema às quais era devida uma reparação.

Não demorou muito para Makarenko perceber que os manuais pedagógicos simplesmente não funcionavam para a sua realidade, e isto porque não previam cobrança, recompensa, estímulo ou punição. Ele chamava os pedagogos de seres do Olimpo, por viverem nas nuvens, distantes da realidade, e considerava as teorias pedagógicas vazias, sem possibilidades de aplicação prática. Sem temerem consequências ou esperarem qualquer recompensa os internos não tinham nenhum interesse em respeitar as regras da Colônia, muito menos em aprender alguma coisa. Até mesmo a segurança dos educadores ficava comprometida na maioria dessas colônias onde professores e funcionários tinham medo dos colonistas e estes dominavam as instituições, fazendo nelas o que queriam.

Depois de passar uma noite trancado em seu dormitório por medo dos próprios alunos, Makarenko decide trabalhar de modo intuitivo, disciplinar nos moldes dos destacamentos militares, mas flexível, e sem ficar preso às convenções dos manuais pedagógicos. Não foi nada fácil. No começo os internos reagiram, mas vendo que o diretor estava irredutível alguns aderiram, outros preferiram fugir e passaram a praticar crimes na região. O Departamento de Educação via com preocupação e ressalvas — e até mesmo com alguma inveja — o modo como Makarenko dirigia o reformatório e chegou a lhe impor algumas dificuldades, embora ele contasse com a simpatia de algumas pessoas influentes. Makarenko também se questionava muito sobre os resultados da sua metodologia e por várias vezes pensou em desistir, mas decidiu continuar e aprender com os erros. Acabou chegando à conclusão de que não conseguiria educar delinquentes juvenis se não houvesse cobrança por desempenho nem punição por indisciplina, mas também não adiantaria cobrar disciplina e estudo se não oferecesse nada em troca.

Disciplina, para ele, não era entendida como coerção ou imposição de normas rígidas de conduta, mas como a priorização do coletivo em detrimento do individual. Não de qualquer coletivo, mas de um coletivo harmonioso, pois só dentro de um coletivo harmonioso e feliz seria possível frutificar uma ética socialmente saudável. Ao longo de oito anos Anton Makarenko procurou "construir" um ambiente onde os educandos se sentissem parte dele. Era no coletivo que as demandas eram discutidas e providenciadas e era dentro dele que os problemas deveriam ser enfrentados e resolvidos. Os responsáveis por faltas mais graves, como furtos ou vandalismo, eram julgados pelos próprios companheiros numa espécie de assembleia, chamada por ele de Conselho de Comandantes, que decidia se o infrator era culpado, se deveria ser punido e qual a pena. Decisão que era sempre respeitada por ele. Gradativamente, os internos foram se convencendo de que a disciplina e o respeito mútuo revertiam para o bem-estar deles próprios.

Câmera fabricada pelos internos da colônia Dzerzhinsky — colônia para menores infratores, também dirigida por Makarenko.

Em poucos anos a colônia se tornou autossuficiente. Fabricava-se de tudo, o excedente era vendido e o lucro era reinvestido na colônia. Os jovens trabalhavam metade do período e estudavam na outra metade, sendo que o empenho deveria ser satisfatório nos dois turnos. Não se tratava apenas de trabalhar por trabalhar, havia toda uma filosofia de progresso e crescimento que não se separava da educação. Makarenko não formou fabricantes de cabos de vassouras, mas médicos e aviadores, ainda que também saíssem de sua colônia exímios marceneiros, eletricistas e torneiros. Uma das primeiras câmeras fotográficas de 35mm fabricadas em série na União Soviética, a FED, saiu de uma colônia dirigida por ele.

A dificuldade em trabalhar com aqueles jovens levou o autor a tratar educação e instrução como coisas diferentes. "Instruir é educar, mas educar não é, necessariamente, instruir". Há uma diferença entre educar um ser humano para tornar viável sua vida em sociedade e instruí-lo para a ciência e o trabalho. Era preciso oferecer muito mais que quartos aquecidos, roupas limpas e boa alimentação, os internos precisavam de garantias de que teriam uma vida rica em possibilidades. Depois de muitas reuniões, discussões e quase dois anos de frustrações, Makarenko conseguiu vagas nos cursos superiores para os internos da Colônia Gorki que se destacassem nos estudos. Aos outros, que não ingressassem no ensino superior, ficava garantido um ensino profissionalizante.

Apesar de suas conquistas Makarenko recebia pesadas críticas de pedagogos e do Departamento de Educação que consideravam suas normas de disciplina rígidas demais e também por ele não seguir as orientações pedagógicas. Percebendo que essa indisposição contra ele já estava prejudicando seus colonistas ele pediu demissão do cargo de diretor da Colônia Gorki, passando a se dedicar à colônia Dzerzhinsky onde teve seu trabalho reconhecido.

"Poema Pedagógico" é uma leitura indispensável para quem trabalha na área de educação. Embora o livro trate do universo dos reformatórios soviéticos do início do século XX, e dentro de um contexto bem particular que foi a implantação do Socialismo na União Soviética, a experiência transmitida pelo autor pode ser muito útil para professores e educadores de hoje. As personagens juvenis que povoam o livro são tão humanas e complexas quanto qualquer adolescente do século XXI e o mesmo vale para os educadores, na maioria muito bem intencionados, mas sem preparo para lidar com meninos e meninas com tantos problemas e com interesses tão divergentes e contraditórios.

Como pensava Anton Makarenko, em se tratando de educação, principalmente de adolescentes, não existe fórmula pronta, por isso devemos levar em conta que na época em que o livro foi escrito a sociedade soviética, como um todo, estava empenhada na reconstrução do país, o que só seria possível através da educação, e esta era a prioridade número um do governo, que entendia ser a única maneira de consolidar a Revolução e concretizar seus ideais.

Os educadores de hoje enfrentam desafios semelhantes, mas ao contrário de Makarenko não podem contar com o empenho do Estado. O tema Educação está presente todos os dias na mídia, que se mostra mais preocupada com a falta de mão de obra qualificada do que interessada numa educação de qualidade voltada para a cidadania. E, apesar dos discursos, a educação pública não é prioridade. Jornalistas, políticos, empresários e economistas são chamados a apontar soluções enquanto os professores, que realmente vivenciam a realidade do sistema, não são ouvidos e assim como Makarenko são o alvo das críticas.

Trechos do livro:

"O mais desagradável dos diálogos é aquele em que o interlocutor que tem o poder para decidir joga com a teoria, acreditando que a teoria determina a realidade".

"Nas ruas, a vida desses pequenos cidadãos transcorre naturalmente e os problemas de sobrevivência são solucionados sem que se recorra à moral e aos princípios tanto prezados pela nossa sociedade, pois não possuem nem tempo, nem costume, nem escrivaninha para ocuparem-se destas coisas. (...) é preciso sobreviver, mantendo-se com força na superfície do globo terrestre, mesmo que para isso seja preciso agarrar-se nas bolsas das senhoras e nas pastas de elegantes cavalheiros.

(...) A vontade dessas crianças há muito fora esmagada pela violência e pelos safanões dos mais velhos. Ao mesmo tempo essas crianças não são nada idiotas; de fato são crianças comuns, colocadas pelo destino numa situação incrivelmente absurda: por um lado elas estão privadas de todos os benefícios do desenvolvimento humano e, por outro, são excluídas das soluções salvadoras, pela simples razão da sua luta pela sobrevivência." (Makarenko, 2005)

Comentários

  1. Amigo, como posso encontrar esse livro? tenho procurado por meses e nao consigo achar. Obrigado. henriquebrasil@hotmail.com

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  2. Henrique,

    Parece que a última edição está esgotada.Procure em sebos, talvez tenha mais sorte. Vale a pena tentar, o livro é ótimo!

    Abraço!

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  3. Excelente resenha, Eduardo! Contudo, precisa de uma revisão ortográfica. Ofereço-me para fazê-lo, caso você concorde.
    Abraços,

    Adriana.

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  4. Adriana,

    Este post realmente precisa de uma revisão, na verdade precisaria ser reescrito. Foi um dos primeiros que escrevi, o terceiro deste blog, e ainda estava pegando o jeito _ e continuo pegando o jeito até hoje :). Isso já faz três anos!
    Hoje eu mantenho outro blog, mas pretendo tetomar este aqui em breve, o que me falta, por enquanto é tempo. Quanto a correção, aceito sugestões, sim. E sinta-se a vontade para dá-las.

    Obrigado pela visita e pelo comentário!

    Abraços!

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  5. Oi Eduardo,

    Obrigada pela excelente resenha, realmente esta muito bem escrita, não li o livro mas o post convida. Não sei se já foi revisado, mas não encontrei problemas ortográficos.

    [] Abraço,

    Cristina Zaragoza

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  6. Cristina,

    Que bom que gostou desse artigo! Fico feliz!
    Ainda não fiz a revisão, mas pretendo retomar este blog em breve antes disso pretendo rever as postagens.

    Obrigado pela visita!

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  7. li muitas coisas sobre Makarenko, e seu artigo foi muito bom para mim, queria algo que mostrasse como realmente ele atuava e vc conseguiu passar isso. Obrigada!!!!

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  8. Parabéns pelo artigo!Atualíssimo, sempre!

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  9. Olá Eduardo.
    Y en hora buena!Ñ sou pedagoga e sequer tenho uma graduaçao, mas tinha que comentar tu resenha.Há pouco tempo li uma ediçao da decada de 60 e em castellano, que também tem sua história, e sim, você consegui fazer un excelente resumen. E creio que para, aquele que tenha a oportunidade de ler este livro experimentará os "sentimentos" de comunidad, humanidade e se emocionará.
    Parabéns!

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